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domingo, 16 de setembro de 2012

Entrega do Prêmio Luc Hoffmann da IUCN na ilha de Jeju, Coréia do Sul





Germano Woehl Junior recebendo o Prêmio "Luc Hoffmann" do executivo suíço, André Hoffmann, filho de Luc Hoffmann, que estava representando o pai. Foto da IUCN

No dia 11 de setembro de 2012 fomos homenageados com o Prêmio Luc Hoffmann da IUCN, durante a realização do Congresso Mundial para a Conservação da Natureza, realizado na ilha província de Jeju, Coréia do Sul.

O prêmio é o reconhecimento do nosso esforço para salvar a Mata Atlântica, com a criação de RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural) em Itaiópolis (SC), que atualmente já protegem uma área de 860 hectares, boa parte preservadíssima, que abriga árvores centenárias e animais ameaçados de extinção e também nosso projeto de educação ambiental que já atendeu em trilhas interpretativas mais de 50 mil estudantes e 2.400 professores.

Eu, Germano Woehl Junior, recebi o prêmio do executivo suíço André Hoffmann, filho de Luc Hoffmann, que estava representando o pai. Confiram as imagens da cerimônia e o discurso que proferi (em inglês).



Speech at the Luc Hoffmann Award Ceremony during the World Conservation Congress, September 11, 2012, on the island of Jeju, South Korea

 
Discurso na cerimônia de entrega do prêmio Luc Hoffmann, 11/09/2012. Foto da IUCN

I am witness to one of the most horrific and tragic events in human history: I belong to the generation of human beings that caused the greatest destruction of tropical forests on record. I was born and lived until now in the Atlantic Rain Forest, one of the richest ecosystems in biodiversity in the world that is undergoing a rapid process of extinction. The most distressing thing was that I did not see this happen by comparing satellite images. I was there, watching it all happen and having the notion that it was wrong. In a few years I saw the forest that leaned in the backyard of my house disappears on the horizon very fast to be replaced by crops and pasture for livestock. I saw rare and shy animals suddenly appear in urban areas and easily killed with sticks and stones. Since I was a child I have known the reason why those animals sought shelter in places where certainly met their demise. With the loss of habitat they were disoriented starving and wandering in a strange world.


Desmatamento da Mata Atlântica uma grande área no entorno das áreas que lutamos para salvar, nas cabeceiras do rio Itajaí, em Itaiópolis (SC). A mata foi derrubada até em cima de uma caverna e nas margens do rio que forma uma cachoeira.

The pressure to destroy the Atlantic Rain Forest is very strong. The last remnants are wiped out. The largest Brazilian cities are in this ecosystem. Seventy percent of the population lives in this ecosystem. Nearly half the area destroyed in the last twenty-five years, about 18,000 km2, occurred in the states of Parana and Santa Catarina, where I was born and raised. Deforestation is stronger in this region because it is one that has the largest area of Atlantic Rain Forest in Brazil.



Pressão total: Destruição da Mata Atlântica no entorno das áreas que lutamos para salvar, nas cabeceiras do rio Itajaí, em Itaiópolis (SC)

In this scenario of devastation, I decided to do something to stop the destruction. Trying to save something for future generations. The dedication and effort of my wife, Elza Nishimura Woehl, has been crucial in this tough battle. Fourteen years ago we started an environmental education program in schools for students know the biodiversity and ecosystems of the place where they live with, thus stimulating their interest in nature conservation. We provided environmental awareness to more than 50,000 students and over 2400 teachers through Interpretive trails. We fight against deforestation and trafficking of wild animals that resulted in at least 400 infractors being fined and prosecuted for environmental crimes.


 
Projeto de Educação Ambiental com as escolas: Crianças tendo contato com a natureza e aprendendo sobre a biodiversidade da Mata Atlântica nas trilhas interpretativas

We pay a high price for daring to halt the destruction of Rainforest. It is too dangerous to protect the nature in Brazil. We only discovered this later. To give you an idea of what I'm talking about I’m going to tell the story of when I found out that. The first area of Atlantic Rain Forest we purchased, a small plot of land with two hectares, has been used for environmental education activities with schools through Interpretive trails in the forest and around dozens of ponds used by amphibians for breeding. To facilitate access to dozens of school buses, we put sign in a highway indicating the way to the Reserve. This road sign was placed in the only available space, next to another sign indicating a house of prostitution that is located near the Reserve. In Brazil, it is illegal to operate a house of prostitution as well as to destroy the Atlantic Rain Forest. Brazilian society abhors houses of prostitution because in that places are common practices of crimes, such as murders, child prostitution, trafficking, drug use etc. For this reason a French term is used as a cover to designate these places, but this does not work because it quickly turned into a synonym for house of prostitution. Our road sign indicating the way to the Reserve, where we run our environmental education project, was vandalized with bullets and stones just after it was installed, but the road sign next, indicating the way to the house of prostitution remains intact until now. We replaced the vandalized road sign three times before giving up.



 
Mata Atlântica preservada nas nascentes do rio Itajaí, em Itaiópolis (SC) que foi comprada com recursos próprios e ajuda de doadores e transformada em RPPN

We realize that the situation of the Atlantic Rain Forest is dramatic. It is seriously threatened. We feel that urgent actions are needed because every day the chain saws are coming closer to the last fragment of Atlantic Rain Forest which is full of life forms, housing many endangered species of plants and animals. It can house, for example, as many as 400 species of tree on a single hectare. So we decided to buy the preserved areas threatened using money from our savings. We started in 1994 purchasing a small plot of land with two hectares and after that purchasing bit by bit we have already gotten 860 hectares which has been transformed into Private Natural Heritage Reserve. The good news is that we got help from donors to purchase the latest area. We are very happy because the effort was worth. That area houses a fabulous biodiversity, with many endangered species of birds, mammals and trees. We have no idea how many species lives there because the biodiversity is very high. We just know that is needed to save it. The nature is very fragile. Right now, it needs desperately our help to be protected. We are trying very hard to do our part to ensure at least a bit of the Atlantic Rain Forest. We believe that there's still time to save many species.

The Luc Hoffmann Award is a great encouragement for us to continue our struggle for Nature Conservation.

Thank you,

Germano Woehl Junior


 
Detalhe da mata preservadíssima da área comprada e transformada em RPPN, que protege as nascentes do rio Itajai e uma rica biodiversidade, com espécies de plantas e animais raras e ameaçadas de extinção.


Germano Woehl Junior (segunda pessoa da esquerda para a direita) e demais homenageados e membros da IUCN na Cerimônia do dia 11/09/2012, durante o Congresso Mundial da Conservação da Natureza (World Conservation Congress), na ilha de Jeju, Coréia do Sul.Foto da IUCN

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A Mata Atlântica está desaparecendo diante de nossos olhos

Cachoeira com 80 metros no rio Lageado, afluente do rio Itajaí, Localidade de Bley Pombas, Santa Terezinha (SC). Para acessá-la em 19/01/1991 tivemos que atravessar uma mata preservada tão extensa que levou quase um dia inteiro de caminhada.

Já me acostumei com a decepção de voltar a algum lugar de natureza exuberante que conheci na infância e encontrar tudo devastado. A riquíssima diversidade de formas de vida da Mata Atlântica, de centenas de espécies de árvores, com algazarras de aves das mais variadas espécies, tudo silenciado e substituído pela monotonia de um reflorestamento de pinus ou eucalipto.

As raras vezes que sou surpreendido ao retornar e ainda encontrar uma mata preservada tal como conheci quando era criança, eu passo a me empenhar para protegê-la, porque já sei o destino trágico daquele pedaço do paraíso da floresta tropical repleta de formas de vida. Foi desta forma que minha esposa e eu salvamos os atuais 856 hectares de Mata Atlântica, nas cabeceiras do rio Itajaí, em Itaiópolis (SC), com a criação de várias RPPNs no mesmo local.

Durante meu período de férias, no dia 19/01/1991, eu levei a Elza para uma aventura de chegar até uma cachoeira de 80 metros no rio Lageado, na localidade de Bley Pombas, em Santa Terezinha (SC). Eu conhecia desde criança a extensa mata preservada onde ficava esta cachoeira que era emblemática para mim porque poucos haviam conseguido chegar até ela.

Eu não era mais criança e havia chegado minha vez de apreciar a beleza desta cachoeira e ficar encantado com ela. A Elza topou na hora o desafio, porque não fazia idéia da dificuldade para chegar até lá. Ao chegarmos a localidade, fiquei muito assustado ao ver o tamanho da devastação ocorrida em Santa Terezinha, mas me animei um pouco ao ver que o extenso fragmento de mata preservada, a partir da estrada até o rio Itajaí, onde se situava a cachoeira, por sorte, havia sido poupado.

Após caminharmos por dentro da mata durante várias horas, usando os cursos dos rios como orientação, finalmente chegamos à cachoeira. Os momentos que passamos lá compensaram o esforço. Nós acampamos duas noites no paraíso, onde passamos momentos mágicos, apreciando e contemplando toda aquela exuberância de biodiversidade da floresta tropical.

Naquela época, eu estava completamente iludido e por ingenuidade acreditava que o código florestal e as leis proibindo o desmatamento da Mata Atlântica eram as armas poderosas que garantiram a proteção daquele paraíso. Qualquer tentativa do proprietário em destruir esta área as autoridades vão autuá-lo – pensei. Era uma das últimas matas preservadas na região. Ninguém se atreveria de desafiar as leis e, além disso, estávamos às vésperas da Rio-92, com o Brasil empenhado cada vez mais em fazer bonito perante a comunidade internacional.

Nesta semana, estava selecionando algumas imagens da flora da Mata Atlântica e deparei com algumas fotos que tirei do entorno da RPPN Corredeiras do Rio Itajaí, no dia 06/02/2005, registradas com uma filmadora digital, que já tinha o recurso de tirar fotos, mas de baixa resolução. As imagens são do vale do rio Lageado, que desemboca no rio Itajaí, em frente da RPPN. Foram tiradas assim que compramos a primeira área, com 31 hectares, a partir do ponto mais alta da RPPN, que hoje tem 856 hectares. Nessa época eu não estava muito familiarizado com a geografia do lugar.





As duas imagens monstram a situação em 06/02/2005. A mata preservada que em 1991 levamos quase um dia todo para atravessar e acessar a cachoeira deu lugar a uma extensa plantação de pinus.

Fiquei chocado ao identificar nestas imagens a cachoeira e toda a mata do entorno que levamos horas para percorrer em 1991 ter sido substituída por pinus. Reparem que plantaram pinus até em cima da cachoeira. São imagens de 7 anos atrás e certamente a devastação foi ampliada. Lamento profundamente de ter me descuidado e não ter conseguido salvar aquela área. Na verdade, não foi um descuido e tampouco falta de empenho, porque a devastação é intensa por todos os lugares e eu estava enfrentando batalhas duras e extenuantes para salvar a Mata Atlântica em outras regiões, inclusive ali perto. Eu achava que iria dar tempo de chegar até lá com força total mas, infelizmente, não deu.

Mesmo assim, por mais desculpas que se consiga arranjar, não me sinto confortado. Estou muito aborrecido e desapontado comigo mesmo por não ter conseguido convencer mais pessoas da urgência e gravidade da situação. Começamos a nos preocupar mais seriamente em salvar a Mata Atlãntica só em 1997, início do nosso projeto de Educação Ambiental. A criação da ONG, Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade, só ocorreu em 2003.

A biodiversidade que existia nesta área se foi para sempre. Eu cheguei a colocar os pés nesta mata já com a plena consciência de que era extremamente importante salvá-la para as gerações futuras. O mais desesperador de tudo é que esta não foi a última área a ser destruída. Qualquer fragmento de Mata Atlântica está com os dias contados e a destruição ocorre diante de nossos olhos.