domingo, 3 de julho de 2011

Criação de abelhas silvestres (meliponicultura) ameaça colmeias na natureza

Cepo de uma PEROBA (Aspidosperma olivaceum) centenária com 70 cm de diâmetro abatida criminosamente com motosserra para retirada de uma colméia de abelhas silvestres. O local fica em uma área de Mata Atlântica primária, em uma encosta às margens do rio Itajaí, onde foi criada a RPPN Corredeiras do Rio Itajaí, em Itaiópolis (SC).


A pior coisa que pode acontecer para uma espécie de planta ou animal é ser alvo da cobiça humana. O fato de uma área ser protegida e vigiada não é empecilho para alguém que deseja saquear algo que pode lhe render alguns trocados.

A bola da vez são as abelhas nativas da Mata Atlântica, ou sem ferrão, cujo comércio tem sido fortemente impulsionado ultimamente com a propaganda de que podem ser exploradas intensivamente para produção de mel, com promessas de ser uma atividade altamente lucrativa. Pelo menos para os saqueadores de colméias em áreas protegidas de matas nativas deve ser, pois já estão ganhando dinheiro sem investimento nenhum.

No meio da área mais preservada da RPPN Corredeiras do Rio Itajaí, em Itaiópolis (SC), observamos algo inacreditável. Uma árvore centenária, com 70 cm de diâmetro, foi abatida com uma motosserra apenas para saquear uma colmeia de abelhas silvestres. O tronco que estava oco foi seccionado para ser levado apenas a parte onde estava a colméia. Veja as imagens. Não conseguimos identificar a espécie de abelha silvestre, para saber se é ou não espécie ameaçada de extinção.


Detalhe do tronco da PEROBA (Aspidosperma olivaceum) abatida onde foi saqueada uma colmeia de abelha silvestre na RPPN Corredeiras do Rio Itajai
 
O que restou da PEROBA (Aspidosperma olivaceum) centenária abatida: troncos seccionados com motosserra para retirada da colmeia de abelhas silvestres

Secção do tronco da PEROBA (Aspidosperma olivaceum) abatida onde estava parte da colmeia de abelhas silvestres saqueada

Na área onde fica o Centro Interpretativo da Mata Atlântica (CIMA), em Jaraguá do Sul (SC), na parte mais preservada, encontrei recentemente outra árvore abatida com o propósito de saquear uma colmeia de abelhas silvestres.

Isso mostra que o problema é preocupante porque já não temos tantas matas preservadas para proteger a biodiversidade e que podem estar sendo garimpadas as últimas colmeias de certas espécies. Descobri que estas colmeias saqueadas da natureza são vendidas para os criadores por R$ 70,00

 Troncos com colméias de abelhas silvestres saqueadas da natureza na casa de morador do entorno da RPPN Corredeiras do Rio Itajai. Foto: Christopher Thomas Blum

Este tipo de apicultura utilizando as abelhas nativas ganhou até um nome especial, meio complicado, de meliponicultura, como uma estratégia de marketing para mostrar que está se explorando algo novo, diferente, mas não é bem assim.

Quando o assunto é domesticação de plantas e animais, o principal equívoco que se comete é ignorar a experiência do passado do ser humano em lidar com as leis da natureza. Esta experiência ainda não acabou. Nesta dura batalha que nossa espécie travou contra a natureza, para explorá-la de modo a aumentar indefinidamente nossa população, que deverá atingir 7 bilhões neste ano, nossos principais alimentos são provenientes de apenas algumas espécies plantas e animais que foram domesticados por volta de 10 mil anos e desde esta época não surgiram grandes novidades.

Mel não é um alimento básico dos humanos. É uma iguaria bastante antiga, mas chegou à mesa das classes menos abastadas somente as últimas décadas, em decorrência da produção comercial de mel em larga. Para esta finalidade, não foi por acaso a escolha da abelha européia Apis mellifera, espécie dócil, que foi miscigenada aqui no Brasil com outra subespécie Apis mellifera scutellata, de origem africana, que denominamos de africanizada, com os propósitos de aumentar a produção, mas tem causado todos estes problemas, com muitos acidentes graves, provocando a morte de centenas de pessoas todos os anos.

Há muitas evidências de que a opção de explorar abelhas nativas da Mata Atlântica para a produção comercial de mel em larga escala foi considerada, testada intensamente e descartada em vários momentos da nossa história nos últimos 300 anos, pelo menos.

A produção de mel com estas abelhas em pequena escala existe há décadas. Quem já não foi abordado nas ruas das grandes metrópoles desde a década de 70, ou antes disso, não sei, por um vendedor ofertando mel de abelha jataí (certamente falso) a um preço 10 ou 20 vezes maior do que o mel de abelha africanizada?

O argumento de que a produção em pequena escala ajudará na geração de renda de pequenos agricultores (agricultura familiar) é pouco provável que ocorra, considerando que já estão com dificuldade em vender ao consumidor final por R$ 5,00 o quilo do mel de abelha africanizada que é relativamente fácil de produzir. Inclusive produtores rurais no entorno de grandes metrópoles ricas do nosso País não estão conseguindo mercado para o mel que produzem de abelhas africanizadas com preços populares. O que dirá, então, vender um mel que custa 10 ou 20 vezes mais, produto de alto valor que é muito mais visado pelos falsificadores – e dificulta a aceitação.

Além de um mercado muito limitado, as dificuldades de manejo são imensas. Haja vista do que ocorre com a apicultura tradicional, que para sobrevivência da colmeia é necessário deixar certa quantidade de mel, mas nem sempre os apicultores, principalmente os inexperientes, respeitam este limite e perdem todas as colmeias nos invernos mais rigorosos. Imagine, então, como será difícil controlar a ganância para um produto que custa R$ 100,00 o quilo e de espécies de abelha que só toleram retirar uma quantidade muito pequena de mel. Portanto, as colmeias saqueadas na natureza vão morrer nas mãos dos criadores em pouco tempo.

As doenças desconhecidas ainda que advirão da criação intensiva de abelhas silvestres é outra grande ameaça às espécies nativas que habitam nossas matas preservadas. Mas pela situação vulnerável em que se encontram hoje, poderão desaparecer da natureza bem antes disso, pelo simples saque das colmeias, como estamos observando.

Na Mata Atlântica ocorre uma interação muito forte entre plantas e animais. A dispersão das sementes e polinização da maioria das plantas são serviços realizados por animais (aves, mamíferos e insetos). Algumas espécies de abelhas silvestres são polinizadores específicos de certas árvores e o declínio ou extinção destes insetos representa a fim para estas árvores e consequentemente pode causar um colapso em todo o ecossistema.

16 comentários:

CBA - 2011 disse...

Germano, pra começar o mel é um dos alimentos mais antigos do mundo, egito, maias, etc.
O saque vem de longe também,o desmatamento e o que mais prejudica as aelhas, mas há muito coisa boa acontecendo. No Nordeste principalmente, desde a criação racional e cuidadosa, quanto cursos de manejo e respeito aos ninhos nativos, por favor vá lá no meu novo blog (http://agroecologiace.blogspot.com)e veja os link dos meliponários, eu mesma estou começando uma criação no meu quintal, e aquisição foi feita com um produtor extremamente ético,prefiro pensar que sempre haverá mais de uma solução para os estragos que causamos (Bill Mollison!/Permacultura!) e voce e Elza são um bom exemplo. Com amor e respeito.
Elaine

Meliponário Rei da Mandacaia disse...

Sugiro que pesquise mais um pouco antes de emitir sua opinião sobre o que não conhece, pois a Meliponicultura não é um termo novo, foi utilizado pela primeira vez por Paulo Nogueira Neto em 1953 (NOGUEIRA-NETO, 1997), para designar a criação racional dessas abelhas, ou seja os "meliponicultores" são criadores racionai que não incentivam a derrubada de arvores para captura de enxames, nós multiplicamos nossos enxames pelo método de divisão de colonias.
para saber mais um pouco da atividade pesquise!
Sugestão: www.meliponarioreidamandacaia.com

Meliponário do Sertão disse...

Eu não sei qual o seu ramo de atividade nem muito menos o seu conhecimento sobre a meliponicultura...
Mas acredito que você foi muito infeliz em falar tão mal sobre a meliponicultura, atividade essa que ao contrário do que o amigo pensa é altamente sustentável e necessária para a preservação das nossas abelhas nativas...
Leia um pouco mais a respeito, na net mesmo saiu a pouco tempo o ótimo trabalho do Venturierri falando exatamente sobre a viabilidade econômica e ambiental da criação RACIONAL de abelhas nativas no Maranhão.

As vezes uma opinião distorcia e irresponsável atrapalha muito os avanços que já foram conquistados a muitas lutas por muita gente importante por esse País.

Atenciosamente,

Kalhil Pereira França
Mossoró-RN
Meliponário do Sertão
www.meliponariodosertao.blogspot.com

JOSE LUIZ disse...

Germano, sua denúncia é pertinente quanto ao criminoso que derrubou a árvore para retirada de um enxame de abelhas nativas ou indigenas. No demais carece de embasamento e conhecimento real das atividades de meliponicultores. Moro no Mato Grosso e iniciei-me na meliponicultura bem pouco tempo, exatamente para preservar da constante ameaça de serem destruidas as belas e doceis abelhas nativas sem ferrão. Sou orquidófilo também e amo a natureza como você e esposa. O maior perigo da destruição de abelhas silvestres na natureza está no desmatamento consentido ou não por órgãos governamentais, no avanço imobiliário em extensas areas verdes no entorno das cidades, na destruição dos cerrados, florestas e caatinga, além da Mata Atlântica. Os meliponicultores, em sua maioria preocupam-se em preservar as matas por entenderem que nelas está a vida das abelhas nativas e sua sobrevivência, pois é da existência de flores (pasto)que elas sobrevivem. Eu mesmo, estou procurando um sitio para comprar, reflorestá-lo e registrá-lo como area de preservação permanente particular, apenas para que as abelhas nativas que crio tenham preservado e garantido um espaço só delas. Esse é o lema dos meliponicultores. Agora, infelizmente existe um e outro bandido que não é meliponicultor, mas "beieiro", que faz o estrago que fez. A esse tipo, cadeia nele. Assim como cadeia no seguimento empresarial que destroi vastas areas de verde, e sabe-se lá, quantas abelhas silvestres, vepas e abelhas solitarias não tiveram seus ninhos destruidos nessa destruição! O meliponicultor amplia seu plantel em caixas racionais pela divisão de colmeias. Sugiro conhecer e visitar um meliponario para melhor informar-se e abraçar a causa, sem levar-se pela emoção e sim pelo conhecimento, verdade e razão.
Abraços - José Luiz - de Cuiaba - MT.(blog: www.orquidariocuiaba.com.br)

Abelhas do Sabugi - PB disse...

Caro amigo,
Parabéns pelo seu interesse e dedicação para com a natureza.
Mas, não será com radicalismo e desunião que iremos salvar o que resta de nossas matas, e garantir um mundo mais verde para nossos filhos.
Em todo lugar sempre irá haver pessoas construindo algo, de um lado, e por outro: pessoas destruindo.
Não generalizemos!
A meliponicultura Brasileira é algo que vem crescendo de uns tempos pra cá. Mas, tem crescido com organização e compromisso dos envolvidos, para com a natureza.
O meliponicultor responsável (esses são maioria) está sempre, tão preoculpado com as abelhas quanto com a natureza, que é berço de tudo.
Se o amigo tirar um pouco do seu tempo, pra se informar melhor sobre o assunto, verá que os meliponicultores são mais ambientalistas, do que simples, criadores de abelhas.

Isaac S. Medeiros
http://abelhasdosabugi.blogspot.com/

Meliponário do Sertão disse...

Se tiver um tempinho, veja o belo exemplo de um grande amigo e meliponicultor que vem contribuindo para preservação das abelhas sem ferrão.

http://www.youtube.com/watch?v=KVtapP251w4

att,

Kalhil
Mossoró-RN

Germano Woehl Jr. disse...

Infelizmente, ao longo da história da humanidade, não existe nenhum exemplo que confirma esta lógica de que a criação em cativeiro para fins comerciais de um ser vivo do reino animal ou vegetal livrou esta espécie da extinção na natureza. Exemplos do século 19 para cá, mostram que ocorreu justamente o contrário. Acelerou o processo de extinção. Já temos uma experiência acumulada de 10 mil anos mostrando que esta lógica não funciona no mundo real.

laercioslessa disse...

Criação racional de ASF é preservacionismo, paixão, ciência, etc. Agora isso sim, exemplo de ameaça: http://www.youtube.com/watch?v=zDK8qY0EKoo&feature=related

Waner Santos disse...

Amigo
Meliponicultura é a criação racional, crimes ambientais como este não tem nada a ver.
Muitas pessoas sérias amantes da natureza, Biólogos, Agrônomos, veterinários afins e várias universidades trabalham muito para difundir a meliponicultura, estamos resgatando espécies únicas, o nosso trabalho é justamente o contrário disso que fizeram na matéria, tenho 15 amigos meliponicultores que antes tinham vários tocos de arvores, como esta na beira da casa e do retiro, hoje criam em caixas racionais, multiplicam seus enxames, cada dia mais pessoas querem aprender a manejar e aumentar seus enxames, produzindo alimento de ótima qualidade e polinizando suas culturas. Já faz 5 anos que trabalho com esse pessoal, não cortamos nenhuma arvore,trabalhando apenas com as abelhas que já tinham, de umas 30 colméias de mandaçaias hoje são mais de 200, de uma única Tuiuva hoje são 6 e por aí vai...
Sugiro conhecer mais a meliponicultura e meliponicultores antes de criticar.
Waner Santos
Biologo

Rednilson disse...

Generalizar é dureza, amigo!
Sou meliponicultor e nunca derrubei um arbusto sequer, quanto mais uma árvore. Quero lhe informar que o verdadeiro meliponicultor repudia este ato insano de derrubada de árvores; ele faz a multiplicação racional de abelhas. Aliás o que fazemos sim é o plantio de várias espécies ( nativas ) para o fornecimento de pólem e nectar para nossas ASF. Vai um conselho para os que se acham muito sábios:
Antes de criticar procure primeiro entender do assunto para que não se torne leviano.



Rednilson.

Rednilson disse...

Ademais, nossas ASF não são criadas em cativeiro. Dê uma "lidinha" no pai dos burros para ver o significado de cativeiro. Acho que vc sequer viu uma colônia de ASF em uma caixa racional!!Kakakaka!!!

SIDI disse...

Caro Germano,sou meliponicultor em São Paulo SP em meio a metrópole e discordo do seu ponto de vista pois a meliponicultura vai contra o que o Sr.afirmou.Tenho pena de quem fez isso com essa árvore pois certamente ele pagará um alto prêço pela maldade.Não é certo generalizar,pois somos conservadores da biodiversidade pois ela é importantíssima para as nossas abelhas(digo nossas pois as apis melíferas não são nativas do Brasil)A preservação é a garantia de que nossos filhos e netos terão no futuro um mundo melhor.
A meliponicultura é a garantia de que essas abelhas não serão exterminadas por meleiros.
Sidi.São Paulo.SP.

Paulo disse...

Olá Germano,
quais são as evidências de que as colméias foram retiradas das árvores por meliponicultores? É claro que existem meliponicultores irresponsáveis, mas também existem em todo canto pessoas conhecidas como "meleiros", que simplesmente retiram o mel das abelhas, onde quer que estejam, descartando depois a colméia. Aqui na região de Sorocaba já conheci muitos destes, que vasculham as matas e campos abertos atrás de colméias de Apis e nativas. Cortam árvores, destroem cupinzeiros, atrás do mel. Então, gostaria de saber se vc tem realmente certeza se foram meliponicultores que derrubaram a árvore e retiraram a colméia. Caso contrário, vc corre o risco de estar cometendo uma tremenda injustiça contra milhares de criadores sérios espalhados pelo Brasil, divulgando idéias equivocadas sobre uma cultura que ainda está engatinhando no nosso país, mas q tem evitado a extinção de várias espécies de abelhas de nossa fauna nativa.
Abraço fraterno
Paulo Otton

Paulo disse...

Ah, outra coisa, se as abelhas fossem criadas em cativeiro, morreriam de fome...elas são livres para irem onde quiserem...nós só mantemos conosco as suas casas, as colméias...e inclusive, algumas vezes, elas nos abandonam e enxameiam para outros lugares...talvez vc precise rever os seus conceitos...
Abraço...

Rúbio Proença disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
comocriarwebsites disse...

é possível fazer uma enxameação da colméia através de iscas. Isso é autorizado pelo IBAMA. O que é proibido é retirar o ninho cortando a árvore como fizeram. Ou seja é possível gerar um novo enxame sem precisar retirar o enxame do seu local original. Quem fez isso não tem nem idéia disso!