segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Plantio de uma árvore coloca em perigo a Mata Atlântica

O difícil trabalho para erradicação da árvore exótica e invasora pé-de-galinha (Hovenia dulcis), também conhecida como uva-do-japão, que está aniquilando a Mata Atlântica na RPPN Refúgio do Macuco, nas cabeceiras do rio Itajaí, em Itaiópolis (SC). Mais de 500 árvores adultas e milhares de mudas oriundas de uma muda de árvore plantada por um morador há 40 anos. Clique na imagem para ampliar.

A maioria das pessoas já deve ter ouvido que as plantas e animais invasores (exóticos, isto é, trazidos de outros lugares) são a segunda causa de perda de biodiversidade, só perdendo para o desmatamento.

Eu já li bastante sobre o assunto, assisti vários documentários sobre a terrível situação de plantas invasoras em áreas protegidas de ecossistemas pelo mundo afora e achava que este era um problema distante do Brasil, que não nos atingia. Pensava isso até conhecer o poder de invasão e de destruição da Mata Atlântica de duas plantas invasoras: da árvore pé-de-galinha ou uva-do-japão (Hovenia dulcis) e do lírio-do-brejo (Hedychium coronarium)

A árvore exótica invasora pé-de-galinha (Hovenia dulcis) é nativa do Japão, leste da China, Coréia até a cordilheira do Himalaia (em altitudes abaixo de 2000 m). Cresce em áreas abertas de solos úmidos arenosos ou argilosos. A árvore foi introduzida como uma árvore ornamental no Brasil e em Santa Catarina para produção de lenha nas propriedades rurais, mas não foi aprovada pelos agricultores.

Os frutos do pé-de-galinha (Hovenia dulcis) são muito saborosos e apreciados por toda a fauna de aves e mamíferos, que se banqueteiam ao redor da árvore na época em que os frutos amadurecem. Quando eu era criança também gostava de comer “pé-de-galinha”, denominação que usamos em Santa Catarina, mas não tinha como saber naquela época que se tratava dos frutos de uma árvore tão perigosa para a Mata Atlântica.

Frutos da árvore exótica e invasora pé-de-galinha (Hovenia dulcis), também conhecida como uva-do-japão.

Por ser muito doce, parece que os animais silvestres (aves e mamíferos) preferem esses frutos importados aos nativos. Na RPPN há uma oferta de uma grande diversidade de frutos das árvores da Mata Atlântica que chegam a forrar o chão e apodrecer na mesma época, mas os habitantes da floresta preferem consumir a importada, os frutos do pé-de-galinha, mesmo correndo o risco de serem abatidas a tiros ou caírem em armadilhas quando freqüentam as propriedades do entorno.

Frutos em desenvolvimento da árvore exótica e invasora pé-de-galinha (Hovenia dulcis)

Esta concorrência, muito desleal, é um problema que desencadeia outro, com graves consequências futuras. A fauna dissemina milhares de sementes para o meio da mata nativa preservada e ao longo dos anos as árvores nativas vão perdendo espaço ao serem substituídas pelo pé-de-galinha (Hovenia dulcis), que pode fornecer frutos para alimentar a fauna somente durante duas ou três semanas - ao contrário da diversidade de árvores da Mata Atlântica que fornece frutos o ano todo.

Já o arbusto lírio-do-brejo (Hedychium coronarium), originário da região da Ásia tropical, foi trazida para o Brasil como planta ornamental especialmente por causa do perfume muito agradável exalado de suas flores brancas. Como o nome diz, esta planta se desenvolve bem em áreas úmidas. Necessita também de muita luz, ou seja, só desenvolve em áreas abertas.

Lírio-do-brejo (Hedychium coronarium), planta invasora que está substituindo a vegetação nativa das ilhas e margens do rio do Couro (afluente do rio Itajaí), na RPPN Corredeiras do Rio Itajaí, em Itaiópolis (SC). Clique sobre a imagem para ampliar

Na RPPN Corredeiras do Rio Itajaí, em Itaiópolis (SC), o lírio-do-brejo (Hedychium coronarium) está colonizando todas as margens e ilhas do rio Itajaí e de seu afluente, rio do Couro. Estimamos que o custo para remoção (mecânica, de arrancar com as mãos) desta planta invasora seja na ordem de milhões de Reais, porque teria que exterminá-las em toda a bacia hidrográfica, não apenas dentro da RPPN porque as mudas e sementes se propagam facilmente nas enxurradas.

Obviamente que não dispomos recursos para bancarmos sozinhos a solução deste problema do lírio-do-brejo (Hedychium coronarium). Então, decidimos atacar o problema das plantas invasoras na RPPN começando pelas espécies que eu imaginava mais fáceis de serem removidas, como a árvore pé-de-galinha (Hovenia dulcis).

O grande estímulo para esta preocupação com as plantas invasoras veio do Programa Desmatamento Evitado (PDE) da SPVS , de Curitiba, que ampliou minha visão sobre o perigo das plantas invasoras. Eu subestimava este problema na RPPN Corredeiras do Rio Itajaí, em Itaiópolis (SC), adotada pelo PDE/SPVS com recursos do Banco HSBC, da campanha publicitária do seguro de automóveis, Seguros Verde Auto. Há dois anos começamos a aplicar estes recursos do PDE/SPVS para combater esta espécie invasora.

Em uma pequena área da RPPN Refúgio do Macuco já foram abatidas mais de 500 árvores adultas de pé-de-galinha (Hovenia dulcis), que deixaram milhares de mudas, muitas delas plantadas pela fauna bem distante do local, na parte de mata primária. Estimamos que leve mais de 50 anos para erradicação desta invasora, deste que tenhamos os recursos financeiros e que os vizinhos também eliminem esta espécie de suas propriedades.

Contaminação biológica: muda da árvore exótica e invasora pé-de-galinha (Hovenia dulcis) plantada por animais (jacú, provavelmente) no meio da mata nativa.

O que estamos observando na RPPN Refúgio do Macuco serve de alerta. Mostra de forma bem evidente que o pé-de-galinha (Hovenia dulcis) é uma espécie de árvore invasora muito perigosa, com um poder devastador de aniquilar a Mata Atlântica e toda sua rica biodiversidade de plantas e animais em poucas décadas. A árvore começa a colonizar a mata ciliar, onde incide mais luz, e vai se expandindo para dentro da mata, substituindo gradualmente as espécies nativas. Moradores do entorno contam que o antigo proprietário da área confrontante apareceu com a novidade por lá há 40 anos plantando uma única muda desta árvore.

Quem não gostou nem um pouco das nossas ações para erradicação - ou controle – da árvore invasora pé-de-galinha (Hovenia dulcis) foram os caçadores. Reclamaram – e muito – porque acabamos com o local de ceva de mamíferos, como o tateto (porco-do-mato), paca e quati. De fato, no local nós encontramos vestígios de instalação de armadilhas nas dezenas de trilhas dos animais silvestres. Era o melhor ponto que eles tinham para caçar.

Prefeitura de Santa Cruz do Sul (RS) proíbe o plantio e determina erradicação de uva-do-japão no município.


Publicação: 12/11/2008
Fonte: Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Sul
 
Uma resolução aprovada na última segunda-feira, dia 10, pelo Conselho Municipal de Meio Ambiente (CMMA) proíbe o plantio, a produção e a comercialização de mudas da espécie exótica Uva do Japão em Santa Cruz do Sul. Por ser uma espécie com grande capacidade de germinação e proliferação ela é bastante agressiva tornando-se dominante no meio onde vive e eliminando as espécies nativas ali existentes.
 
Segundo o presidente do Conselho e também titular da Secretaria Municipal de Saneamento e Meio Ambiente, Clero Ghisleni, nos últimos anos houve um avanço na incidência da espécie junto ao Cinturão Verde, considerada área protegida, trazendo graves conseqüências para a fauna local. Com a aprovação da medida uma série de ações visando a substituição da espécie serão implementadas pelos órgãos responsáveis.
 
Nas escolas da rede pública, por meio de projetos de educação ambiental, devem ser proferidas palestras com o intuito de levar informações aos pais, alunos e professores sobre os riscos que a disseminação dessa espécie pode provocar ao meio ambiente. “Vamos buscar conscientizar e orientar a população para o plantio de outras espécies mais benéficas. A Uva do Japão se desenvolve rápido, tem boa capacidade de produção, mas termina com as nossas espécies nativas”, explica Ghisleni
 
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente informa que nas áreas rurais onde a espécie é usada para consumo, a substituição da floresta poderá ser feita por outra espécie exótica. No caso dá como sugestão o Eucalipto. Ghisleni lembra que a Uva do Japão é muito usada nas propriedades do interior como fonte de energia para a cura do fumo. “Nesses casos a substituição será gradativa para não inviabilizar a atividade econômica do produtor”, diz ele.
 
Nos casos de terrenos situados em áreas urbanas o corte poderá ser efetuado sem a necessidade de licenciamento e deverá ser efetuado no prazo de até 30 dias após a notificação da prefeitura. Nas áreas de preservação ambiental o procedimento somente poderá ser feito com licenciamento e a substituição do exemplar será por uma espécie nativa. Já nas áreas públicas a supressão da espécie ficará a cargo da Secretaria Municipal de Saneamento e Meio Ambiente.
 


12 comentários:

Luiz Álvaro disse...

Germano, uma pesquisadora da ESALQ desenvolvou um método para erradicação do lirio-do-brejo. Veja o link: http://www.usp.br/agen/?p=86604

Germano Woehl Jr. disse...

Luiz Alvaro,
Agradeço muito a sua ajuda. Eu li o trabalho que você indicou da Luísa Almeida Maciel.

Nós já tivemos a mesma experiência bem sucedida. Conseguimos erradicar o lírio-do-brejo da RPPN Santuário Rã-bugio, em Guaramirim (SC), por volta de 1995, arrancando e cozinhando os rizomas de uma extensa área.

O problema na RPPN Corredeiras do Rio Itajaí é bem mais complexo. Temos mais de 10 quilometros de rios com vários pontos das margens e ilhas tomadas pelo lírio-do-brejo. São lugares de difícil acesso (fundo da grota do rio do Couro, por exemplo), que leva duas horas para chegar. Depois, você tem que caminhar ao longo do rio, que leva dois dias inteiros (da madrugada até ao anoitecer) para percorrer o trecho ida e volta só dentro da RPPN.

Nas chuvas fortes de novembro/2011, foram trazidos centenas de pedaços de rizomas das cabeceiras do rio do Couro e rio Itajaí, à montante da RPPN.

Portanto, mesmo que a gente consiga eliminar todas as touceiras dentro da RPPN, gastando muito dinheiro de mão de obra para arrancar, destruir os rizomas e caules (enterrando profundamente no local, por exemplo) e fazer o monitoramente ao longo de alguns anos, na primeira enxurrada todo este serviço estará perdido.

Em uma propriedade de Joinville, com mais de um hectare tomado pelo lírio-do-brejo, eu vi um técnica interessante. O proprietário contratou mão de obra para arrancar e amontoar (concentrar) o lírio-do-brejo. Fazendo isso durante 5 anos conseguiu eliminá-lo completamente.

Ana Gama disse...

Germano, nesse caso é por ignorância mesmo. Muita gente, e eu me incluo nessa situação, não sabem o grande mal que fazem. A TV e companhia, devia informar mais a população que nesse caso não faz por mal, mas, por ignorância.

Ana Gama disse...

Germano, nesse caso é por ignorância mesmo. Muita gente, e eu me incluo nessa situação, não sabem o grande mal que fazem. A TV e companhia, devia informar mais a população que nesse caso não faz por mal, mas, por ignorância.

ONG ZELADORIA DO PLANETA disse...

Parabenizo o DEFENSOR DA NATUREZA pela iniciativa e pelo belo trabalho...estaremos divulgando em Minas Gerais e convido acessar nosso site www.linkminas.com ONG Zeladoria do Planeta

angela_fantin disse...

Interessante,pois conheço muito bem
essa árvore frutífera,temos aqui bem próximo essa árvore,também quando criança gostava dos frutos,como sou leiga nesse assunto,mas, sei o valor de cuidarmos de nosso planeta.
Também existem aquelas plantas que invadem os riachos de parques e ocupam todo o espaço,reservado as espécies de fauna,oque seria estes?
Obrigada por compartilhar!!
Parabéns pelo trabalho e esforço de vocês!!

Adélia Di Buriasco disse...

Ótima oportunidade para participar dos editais de apoio da Fundação Grupo Boticário, este ano com temas ligados a ações para prevenção ou controle de espécies invasoras. Com inscrições até 31 de março.

http://www.fundacaogrupoboticario.org.br/pt-br/paginas/novidades/detalhe/default.aspx?idNovidade=303

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Germano:

Na Serra Gaúcha o "pau-doce" ou "uva-japonesa" (Hovenia dulcis) é a mais séria invasora das matas de encosta, além de inútil como frutífera ou como produtora de madeira para fogões (lenha ruim, leve, que queima muito rápido).
Além de desnecessária, a espécie ameaça seriamente nossos ecossistemas silvestres, como o Pinus taeda ameaça os ecossistemas campestres.
A Prefeitura de Santa Cruz do Sul está de parabéns pela iniciativa resposável e corajosa.

Celso

Celso do Lago Paiva
Grupo de Estudos de Organismos Invasores (GEOI) do
Instituto Pró-Endêmicas (IPEn)
http://br.groups.yahoo.com/group/geoi/

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Raquel disse...

No sitio do meu avo tem esta arvore e passei minha infancia comendo uva japonesa, mas agente fala uva do para.

Germano Woehl Junior disse...

Raquel,
Na minha região esta árvore é conhecida como PÉ-DE-GALINHA. Eu também apreciava muito os frutos desta árvore na minha infância. Se não estiver bem maduro, amarra a boca, como um caqui verde. Eu não fazia ideia dos problemas que esta árvore causa para a natureza do Brasil. As árvores jovens são difíceis de serem eliminadas porque ocorre uma vigorosa brotação do cepo, após o corte.